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O 'fair play financeiro' e a soberania no Brasileirão

A cada possibilidade de hegemonia que surge no futebol do Brasil, ganham fôlego as discussões acerca do fair play financeiro.


A força do Palmeiras na temporada de 2018, com a montagem de um elenco valioso, retomou um debate a respeito do equilíbrio nas contratações feitas pelos times da Série A, tema que ressurge[1] com as atuais demonstrações de soberania do Flamengo no mercado, que domina a janela de transferência de 2020.


Foto: twitter/Marcelo Cortes/CRF/Direitos Reservados
Eleito a revelação do Brasileirão 2019, Michael é um dos reforços para o Flamengo em 2020. O atacante custou R$ 34,5 milhões.

Inicialmente, é importante definir tal conceito e demonstrar de que forma ele se firmou no futebol mundial. A liga alemã foi pioneira na criação de mecanismos de controle financeiro para seus clubes, tendo um conjunto de regras a respeito do tema desde 1962. Práticas semelhantes foram implementadas posteriormente na Itália, Holanda, e, em 2010, na UEFA (União das Associações Europeias de Futebol)[2], com a caracterização de “fair play financeiro” (FFP) que adotamos hoje.



E no que consistem essas regras? Com tais regulações, os clubes se submetem a obrigações de equilíbrio financeiro mais rígidas. Foram adotados mecanismos de controle amparado em sanções diversas – multas, perda de pontos, desqualificação de competições e até mesmo retirada de títulos - que tinham como objetivo final incentivar a saúde financeira dos clubes: restringir a acumulação de dívidas, impedir que os clubes gastem muito além do que ganham, cumprir determinações de controle fiscal, de seguridade social ou de débito em relação aos seus próprios jogadores.


Isso não quer dizer que os clubes não possam adquirir dívidas. O endividamento é normal, e está no cotidiano de qualquer instituição que dependa de grandes investimentos. O que essas regras tentam impedir é a formação de dívidas insustentáveis. O alvo dessas determinações são, para além da obrigação de “justiça” em relação aos seus pares, a de uma obrigação do clube para com sua própria saúde financeira.


Dito isso, as diversas contratações realizadas anteriormente pelo Palmeiras, e mais recentemente pelo Flamengo, apesar de ressuscitarem a temática, só fazem sentido se analisadas em conjunto com o balanço, capacidade de pagamento e demais aspectos das contas dos clubes. O fair play financeiro não proíbe gastos exacerbados, e sim gastos que estão além das possibilidades da instituição.


Um estudo recente do ITAÚ BBA[3] fez uma análise econômico-financeira dos clubes a partir de dados de 2018. Os critérios utilizados para a análise são as receitas, custos e despesas, geração de caixa, investimentos, dívidas e gastos gerais do clube. A conclusão é que, em quase todos os critérios, Flamengo e Palmeiras alcançam um amplo favoritismo, representando um abismo em relação aos demais no que se refere ao equilíbrio financeiro em geral.


O Consultor Cesar Grafietti, responsável pela elaboração do estudo, vê no Flamengo hoje uma potência econômico-financeira do futebol brasileiro. O especialista aponta que “anos de austeridade, recuperação da imagem e trabalho colocaram o clube numa condição invejável. Receitas elevadas, geração de caixa robusta, dívida controlada e em patamares aceitáveis”[4]. Os gastos moderados no decorrer dos anos permitiram ao Flamengo, hoje, investir em elencos que resultem nesse grau de competitividade, tudo dentro de sua capacidade econômica.


Ainda que submetido às mais rígidas regras de fair play financeiro do futebol europeu, o Flamengo não estaria sob risco de sanções. As normas de avaliação da UEFA compreendem períodos de três anos, e contam com uma margem de tolerância (gastos acima dos ganhos) de até 5 milhões de euros. Este limite ainda pode ser excedido em um certo nível “caso esteja inteiramente coberto por uma contribuição/pagamento por parte do(s) dono(s) do clube ou entidade envolvida”[5]. Para os períodos de avaliação 2015/16, 2016/17 e 2017/18, por exemplo, o limite era de 30 milhões de euros (aproximadamente 138 milhões de reais).


Considerando os resultados de balanço do Flamengo nesse período, conforme o relatório do Itaú BBA, o clube estaria muito longe de ser violar as regras da UEFA caso estivesse submetido a ela, tendo excelente saldo positivo nos dois primeiros anos e um ínfimo saldo negativo no último.


Fonte: Itaú BBA

Fonte: Itaú BBA

No ano de 2019 essa realidade econômica rubro-negra fica ainda mais sólida. O jornalista Rodrigo Mattos[1]informa que o Flamengo estima uma receita de cerca de R$ 900 milhões no ano de 2019, o que por si só proporciona uma capacidade fora do comum de realizar contratações em relação aos demais clubes brasileiros sem o risco de resultar num balanço final negativo.


É importante destacar que isso, por si só, não quer dizer que a hegemonia flamenguista no mercado será eterna. O próprio Palmeiras, que em 2018 parecia construir um sólido caminho em direção a uma soberania, já tem de cortar gastos e vender jogadores esse ano para não queimar caixa desnecessário. Segundo o consultor Cesar Grafietti, “ao subir demasiadamente os gastos o clube passa a se colocar numa posição de ter que vender atletas para reequilibrar a conta sem ter que aumentar dívida para fechar o caixa”. Isso mostra os desafios de uma gestão fiscal responsável, mesmo para um clube que está muito acima de quase todos os seus adversários nesse quesito.


Normas de fair play financeiro já começam a ser implementadas no Brasil a partir desse ano[2], e caso tenham sido bem elaboradas tendem a ser proveitosas, principalmente porque, diferente dos dois clubes citados acima, boa parte dos outros times não foram competentes em manter o equilíbrio nas contas necessário para realizar bons investimentos desportivos.


A ponderação na gestão financeira não deve ser exclusiva daqueles que têm capacidade de gerar receitas astronômicas, tampouco a cautela na administração dos recursos de um clube com menos poderio financeiro resulta em menos competitividade. O EC Bahia é um grande exemplo de clube com receitas menores que boa parte de seus adversários na Série A, mas que através da implementação de normas rígidas de gestão e responsabilidade fiscal consegue competir na parte de cima da tabela e manter balanços positivos no decorrer dos anos recentes.


O fair play financeiro, portanto, não deve ser suscitado em resposta aos avanços no mercado de times com plena saúde financeira, mas sim para questionar times que gastam muito além de sua capacidade de pagamento, resultando em dívidas insustentáveis e que podem gerar danos difíceis de reparar. Responsabilidade fiscal traz resultados também no futebol, e a forma mais eficiente do torcedor lutar contra o desnível financeiro entre os clubes da Série A é cobrar dos dirigentes de seu time transparência e zelo na administração do capital.


[1] https://rodrigomattos.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/flamengo-estima-receita-recorde-de-cerca-de-r-900-milhoes-em-2019/ [2] https://www.lance.com.br/futebol-nacional/novo-modelo-fair-play-financeiro-definido-por-cbf-clubes-brasileiros.html

[1] https://www.lance.com.br/fora-de-campo/torcedores-debatem-web-sobre-fair-play-financeiro-brasil.html [2] https://pt.uefa.com/community/news/newsid=2065454.html [3]https://www.itau.com.br/_arquivosestaticos/itauBBA/Analise_Clubes_Brasileiros_Futebol_Itau_BBA.pdf [4]https://www.itau.com.br/_arquivosestaticos/itauBBA/Analise_Clubes_Brasileiros_Futebol_Itau_BBA.pdf [5] https://pt.uefa.com/community/news/newsid=2065454.html